Breve viagem ao leme das Terapias Expressivas

Breve viagem ao leme das Terapias Expressivas

Por Mestre João Luís Bucho e Irene Domingues

 

Desde sempre a arte esteve fortemente relacionada com o simbólico, estando conexada com a magia, o exorcismo, o ritual, como é visível através das gravuras rupestres efectuadas pelo Homem primitivo. Era usada por feiticeiros, curandeiros ou xamãs, com finalidade catártica, curativa e integrada em rituais mágicos.

Embora o interesse na relação entre terapia e arte venha de longe, foi somente a partir, da década de 30 do século passado, que se distinguiu como opção terapêutica, quando alguns psiquiatras se começaram a interessar pelos trabalhos desenvolvidos por certos pacientes (em especial, pacientes esquizofrénicos), procurando uma ligação entre as suas produções e a doença que eram portadores.

Depois de 1930, as técnicas artísticas utilizadas em terapia, foram sendo desenvolvidas e criteriosamente pesquisadas, por profissionais de várias áreas, tais como, Freud, Carl Jung, Hans Prizhorn, Emil Kraepelin, Walter Morgenthaler, Carl Rogers, Nise da Silveira, Natalie Rogers, Margueret Naumburg, Adrian Hill, Florence Cane, Edith Kramer, Janie Rhyne, Moreno, Fritz Perls, Marion Chace, Abraham Maslow, Winnicott entre muitos outros.

O resultado do desenvolvimento e da pesquisa destas técnicas abriu caminho para que na segunda metade do século XX surgisse um elevado interesse, pelas intervenções artísticas terapêuticas dos doentes psicóticos e dos traumatizados da segunda guerra mundial. Este envolvimento das produções dos doentes teve um enorme contributo, no reconhecimento da Arte Terapia, como valência terapêutica pela Associação Internacional para o tratamento da esquizofrenia.

Embora pareça estranho o facto de a ênfase das técnicas expressivas, incida na maioria dos casos, sobre patologias psicóticas, na verdade nada tem de estranho, se tivermos em conta que a maioria dos profissionais que se envolveram neste percurso eram médicos psiquiatras, psicólogos e artistas que trabalhavam em hospitais psiquiátricos.

Algumas décadas mais tarde Natalie Rogers (Psicóloga), foi a primeira a perceber o poder da integração expressiva em Terapia e Psicoterapia, desenvolvendo aquilo a que veio a chamar de conexão criativa.

“… Estou intrigada com aquilo a que chamo conexão Criativa: a crescente interfase entre movimento, arte, escrita e som. O facto de nos movermos com consciência, por exemplo, abre-nos a sentimentos profundos que podem depois ser exprimidos em cores, linhas e formas….O processo de Conexão Criativa que desenvolvi estimula a auto exploração”.

Ainda segundo Natalie Rogers (1989):

“… O terapeuta Expressivo combina movimento, arte, escrita, imaginação guiada pela música, meditação, trabalho corporal, comunicação verbal e não verbal, para facilitar o auto conhecimento, a auto expressão, a criatividade e estados mais alterados de consciência”

A proposta de conexão criativa de Natalie Rogers, teve o mérito de ser a percursora deste movimento de integração humana, no entanto, a sua proposta não englobou: o lúdico, o jogo, os aromas, o brincar espontâneo, o brincar organizado e os rituais.

Da ampliação da proposta de Natalie, o alargamento dos seus conceitos, e a integração de outros mediadores expressivos possíveis, surgem “AS TERAPIAS EXPRESSIVAS INTEGRADAS”, integrando assim todas as formas de expressões não-verbais e não somente as artísticas. As Terapias Expressivas Integradas, devido ao seu carácter polimediado, integrador, holístico, sistémico e transmodal, diferem, assim de outras formas de Terapias que utilizam a Arte como principal instrumento de trabalho, como: a terapia pela arte, arte terapia, musicoterapia, dançoterapia, ludoterapia, dramoterapia, biodanza, dança-movimento-terapia e arte em terapia.

Na atualidade e por força do agitado, mecanizado, angustiado e stressado mundo em que vivemos, as Terapias Expressivas vão cada vez mais ganhando espaço, promovendo a aquisição de novas competências e melhorando a qualidade de vida e bem-estar individual e social. De forma geral, podemos referir que o seu campo de intervenção é bastante alargado, podendo desenvolver-se em contexto educativo, clínico e sociocomunitário.

As Terapias Expressivas podem contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos elementos dum grupo terapêutico, observando alguns dos seguintes princípios:

  • Todos os seres humanos são potencialmente criativos, contudo a criatividade não se desenvolve por si só, deverá ser incentivada e estimulada e resulta da interação multidisciplinar entre várias áreas do conhecimento.
  • A criatividade é uma função mental fundamental para gerir o equilíbrio humano.
  • A criatividade é extravasada por diversas formas de comunicação, verbais e não-verbais.
  • Os sentimentos e as emoções são uma fonte de energia. As energias podem ser canalizadas através da expressão e assim libertadas.
  • Ideias, sentimentos e emoções bloqueados e reprimidos podem desencadear desequilíbrios, transtornos, tenções, rigidez e doenças.
  • Aquele que se exprime não pensa, abandona a esfera do linear, do lógico e racional e emerge num mundo curvilíneo, do sensorial.
  • Para haver livre expressão criativa é necessário romper hábitos, esquemas, preconceitos, desafiar o velho, desaprender rotinas, deixar para trás as máscaras, as certezas, as estereotipias.
  • Não existe expressão sem liberdade. A expressão é a libertação de energias contidas, por vezes até desconhecidas para o próprio. Libertação do homem racional, automático, mecanicista, rotineiro, receoso, com medo de se expor e arriscar.
  • A expressão implica um movimento duplo, interior e exterior, relacionando conhecido e desconhecido, consciente e inconsciente. Do interior emana uma impressão, sensação, para o exterior, e do exterior que implica uma exteriorização pessoal da vida interior e da forma como a pessoa se relaciona com os outros.
  • A expressão abre-nos as diversas portas ao nosso ser secreto, revelando a vida interior de cada indivíduo e acorda as múltiplas potencialidades humanas que muitas das vezes se encontram escondidas e adormecidas.
  • A expressão promove o retorno à sua própria autenticidade, permite o descobrimento do si-mesmo.
  • Expressão é energização, facilita a excitação emotiva, libertação, compreensão interior e promove o autoconhecimento.
  • A expressão facilita um estado de fluidez emocional, desmobilizando defesas internas, promovendo e ampliando novos espaços criativos.
  • A expressão está na base do processo criativo.
  • Só existe criatividade na diversidade.
  • O processo criativo é catártico, transformador, renovador e curativo.
  • A expressão é ação, criação, imaginação, fantasia, comunicação, relação, transcendência.
  • Expressão é agir, sonhar, perceber, sentir, refletir.
  • A expressão desencadeia uma constelação complexa de diferentes forças, dinâmicas e interativas de múltiplas relações e inter-relações, onde se articulam várias áreas, que vão desde a imaginação, razão e a emoção.
  • A expressão faz parte integrante da vida de uma pessoa, de um povo, de uma cultura.
  • A livre experimentação e expressão, permite-nos sermos transformadores e transformados, brincando, crescendo e aprendendo, ao mesmo tempo que nos tornamos mais nós próprios e mais autênticos.
  • A expressão, desempenha funções educativas, terapêuticas, psicoterapêuticas, artísticas e sociais.
  • O crescimento e desenvolvimento pessoal, só são possíveis num espaço afetivo, com um ambiente de apoio e de segurança.
  • Só é possível entendermos as técnicas e metodologias expressivas, se primeiro vivenciarmos todo o processo.
  • Todos temos a capacidade de nos expressarmos através de diferentes linguagens expressivas, pelo olhar, pelo movimento, gesto, choro, riso, mímica, desenho, pintura, modelagem, escultura, teatro, música, dança, escrita e poesia.
  • Quanto maior for o número de mediadores expressivos, colocados à disposição do ser humano, maiores serão as suas possibilidades de se exprimir, de desenvolver as diferentes capacidades criativas, as diferentes inteligências múltiplas, as suas diferentes potencialidades.
  • A expressão livre através das artes e dos jogos, proporciona não só o bem-estar, como também o desenvolvimento cognitivo, motor, emocional e relacional, revelando-se num elemento fundamental para o desenvolvimento harmonioso do ser humano, e deverá ser estimulada e não condicionada nem bloqueada, com interrogações, proibições, limitações e hesitações.
  • A Integração pessoal, só é possível mediante a integração das diversas linguagens expressivas.
  • A prática da expressão deverá estar integrada em todas as áreas curriculares e profissionais: educativas, saúde e sociocomunitárias, já que é necessário trabalharmos todas as diferentes dimensões do sujeito e não só, como muitas das vezes alguns pensam apenas a componente cognitiva.
  • As expressões integradas, são uma forma de construção dinâmica, articulada dos vários saberes, promovendo e facilitando diferentes áreas, facilitando que estas sejam abordadas não de uma forma redutora, estanque, compartimentada, regional, a preto e branco, para dar lugar a uma visão generalista, globalizante, integrativa, universal e colorida.
  • Acreditamos e defendemos que se ampliarmos a nossa capacidade expressiva, ampliamos a nossa forma de estar, de ver e de nos relacionarmos com o mundo, o nosso e o que nos rodeia, e assim caminhamos para o bem-estar e qualidade de vida que todos ambicionamos e procuramos.
  • As Terapias Expressivas Integradas, permitem trazer ao consciente aspetos até então desconhecidos e outros que as pessoas ocultam, por medo, vergonha e fragilidade.
  • O Terapeuta Expressivo deve ter uma atitude envolvente, flexível, disponível, autêntica, genuína, empática, dedicada, segura, contentora e continente.
  • O Terapeuta Expressivo deverá criar/facilitar uma atmosfera de apoio e confiança, caracterizada numa relação próxima e aberta e assente numa metodologia não diretiva e/ou semi-diretiva.
  • O Terapeuta Expressivo deverá ter uma postura profissional baseada em princípios éticos e deontológicos, preservando sempre o respeito, a confiança e a identidade dos seus clientes e das instituições.

 

Bucho, J. L. S. M. C. & Domingues, M. I. V. V. (2012). Breve viagem ao leme das Terapias Expressivas. Boletim Informativo da Liga Portuguesa contra as Doenças Reumáticas, Nº 45, pp. 6-7.

Autor: Vivenciarte

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